segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Sobre a folha
Para escrever, sê, antes
apaixonado por cada partícula
de luz, sede, suor e medo
que te faz esmerilar da vida um tenro segredo.
Faz do cotidiano, na pena
e na folha, teu filão
e de teus olhos eremitas
faróis dos outros, coração.
Que a folha seja teu deserto,
teu mar e teu espaço sideral
onde antes de te perder
encontre numa ideia teu graal.
Confisca, abraça e prende
a folha como se fizesse ela
parte de tuas próprias vestes.
Mas não te esquece,
infante trovador:
de abraçar também
este velho e cerúleo mundo -
lar cósmico do teu eterno labor!
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Sérgio Costa
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20:06
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Quasar
Estou urgente e urgindo por mudar
a rotina e os caminhos não-traçados.
Mergulhar bem fundo e voltar à tona
do mar de incertezas que afoga
o papel onde desenho
meu amanhã tão belo!
Enxergar além do além-comum
da uma vida em véspera de se aglutinar
num emaranhado de promessas desbotadas
É preciso se deixar levar
pela força infinita de um quasar
para enfim, deleitar-se em vista e ouvido,
do pulso magnânimo de uma estrela imperfeita:
o próprio refletir de si!
Postado por
Sérgio Costa
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19:59
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quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Constructo quo
A minha ansiedade já foi nervosa,
necessária, incisiva, e mesmo nas horas
tranquilas, utilmente raivosa:
agora, beija o ontem com desdém
e abraça tudo o que vier dizendo breve "amém".
Meus planos já foram fatais,
e tão maquiavelicamente apressados...
Quando muito agora atiram cegos dardos
e se adiam por três ou mais natais.
O meu amor já foi pacífico, revolto;
hoje é martírio num mar de delícias -
saudosa valsa em allegro non molto.
Não digo que agora sou de todo seguro,
tranquilo, decidido, talentoso e maduro:
apenas construo e derrubo, erijo e desvio -
quando posso, dirijo com graça mesmo perdido
tentando controlar minha sábia tendência ao desvario.
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Sérgio Costa
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19:13
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quinta-feira, 9 de junho de 2011
Dionísio e a cerejeira
Houve um tempo em que seu coração era uma tabula rasa. Não necessariamente sem qualquer experiência, como dizia Locke, mas um descompasso em uma partitura mal escrita. Inocentemente promíscuo e incapaz de discernir qualquer sentimento acima da linha de sua virilha.
Madrugada.
Todos os sons dormiram.
Para onde foi a festa daquelas ruas sujas? No meio da música pulsante e violenta, não podia ouvir o quase-sussuro que tanta falta lhe fazia. Bebeu, beijou, riu (falsamente), cantou... sem sentir nada. A vida deveria ser mesmo muito breve ali, como música de elevador - só se escuta até a próxima parada.
Aprendera desde cedo que seu laboratório era a noite; a solidão, sua amante, e o álcool seu melhor amigo. Mas tinha de voltar pra casa, desbravar outros mares.
Queria mais.
Na semana seguinte, um aniversário a comparecer. Amigo próximo, família simpática, fotos, bolo e sorrisos...
E ela.
Não! Não era, no entanto, a irmã do amigo. Era a vizinha - segunda casa à esquerda descendo a rua - e lembrou que já a conhecia de vista. (Re)apresentações, conversa rápida, risos e logo ele achava seu porto seguro.
Escolheu não escolher mais.
Era ela!, e seu nome era o canto das sereias, a celebração de Dionísio, o vinho mais macio e caloroso.
Acertava o curso de sua vida pelas mãos dela no leme corrigido.
Pelas mãos dela escrevia nova partitura.
As mãos dela criavam a luz.
Ela e sua boca, cerejas perfeitas.
Ela... sua ilha.
Seguiram viagem entre calmarias e rodamoinhos por cinco lindos meses. Descobriu nela o ir e vir de seus beijos como uma jornada sem volta. Nadou profundamente no oceano de eternas batalhas a vencer - batalhas invisíveis para ganhar seu coração.
***
Voltou à noite, ao asfalto.
Sua viagem acabara. O tempo passou sem pedir licença e sua ilha o deixou - pela primeira vez, não fora ele a deixar um lugar.
Mas era outra pessoa agora.
Escolheu o norte. Estendeu suas velas para partir sozinho. Porém, a solidão não era mais sua companheira: tinha, agora, a memória, tesouro que nenhum pirata ou abismo oceânico lhe tomaria.
A saudade trouxe-lhe o impossível ao toque das mãos.
---------------------------------
[Texto produzido por mim na faculdade para nota da AP1 na disciplina Atelier de Produção Textual, no ano de 2010]
Madrugada.
Todos os sons dormiram.
Para onde foi a festa daquelas ruas sujas? No meio da música pulsante e violenta, não podia ouvir o quase-sussuro que tanta falta lhe fazia. Bebeu, beijou, riu (falsamente), cantou... sem sentir nada. A vida deveria ser mesmo muito breve ali, como música de elevador - só se escuta até a próxima parada.
Aprendera desde cedo que seu laboratório era a noite; a solidão, sua amante, e o álcool seu melhor amigo. Mas tinha de voltar pra casa, desbravar outros mares.
Queria mais.
Na semana seguinte, um aniversário a comparecer. Amigo próximo, família simpática, fotos, bolo e sorrisos...
E ela.
Não! Não era, no entanto, a irmã do amigo. Era a vizinha - segunda casa à esquerda descendo a rua - e lembrou que já a conhecia de vista. (Re)apresentações, conversa rápida, risos e logo ele achava seu porto seguro.
Escolheu não escolher mais.
Era ela!, e seu nome era o canto das sereias, a celebração de Dionísio, o vinho mais macio e caloroso.
Acertava o curso de sua vida pelas mãos dela no leme corrigido.
Pelas mãos dela escrevia nova partitura.
As mãos dela criavam a luz.
Ela e sua boca, cerejas perfeitas.
Ela... sua ilha.
Seguiram viagem entre calmarias e rodamoinhos por cinco lindos meses. Descobriu nela o ir e vir de seus beijos como uma jornada sem volta. Nadou profundamente no oceano de eternas batalhas a vencer - batalhas invisíveis para ganhar seu coração.
***
Voltou à noite, ao asfalto.
Sua viagem acabara. O tempo passou sem pedir licença e sua ilha o deixou - pela primeira vez, não fora ele a deixar um lugar.
Mas era outra pessoa agora.
Escolheu o norte. Estendeu suas velas para partir sozinho. Porém, a solidão não era mais sua companheira: tinha, agora, a memória, tesouro que nenhum pirata ou abismo oceânico lhe tomaria.
A saudade trouxe-lhe o impossível ao toque das mãos.
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[Texto produzido por mim na faculdade para nota da AP1 na disciplina Atelier de Produção Textual, no ano de 2010]
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Sérgio Costa
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20:45
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terça-feira, 7 de junho de 2011
Palavras esquecidas, pessoas inibidas
Não sei por que, hoje vinha pensando no meio do caos de nosso trânsito: como sinto falta de um abraço amigo sincero! De pessoas que, por tempos, dei muito valor e soube estar presente com e para com elas, mas que se escondem não pelo medo de retribuir uma gratidão, mas pelas próprias máscaras que criam por cima de si mesmas.
Queria conseguir entender se pareço "chato" por ser sincero, por estar presente nas horas difíceis e hoje encontro uma baita contradição nisso tudo: mas "ser amigo" não é isso mesmo? Não é mesmo estar presente nas horas difíceis e mostrar-se incondicionalmente doado e solícito?
Será mesmo o destino de quem se mostra de coração realmente aberto ser esquecido ou rotulado como chato?
O que há no coração das pessoas hoje em dia, minha gente? Só mágoa, só a capacidade irrefreável de carimbar estereótipos na ficha do próximo! Por que as pessoas têm de se esconder em máscaras de "valores" que passam por cima do respeito e da consideração, mas quando lhes convém só querem exigir respeito para si mesmas?
Certas palavras foram esquecidas a muito tempo: "obrigado" e "desculpe", principalmente.
Há uma "síndrome do ego inflamado" - opa, doença nova que estou para catalogar! - que não permite às pessoas serem humildes e se calarem quando necessário, querendo sempre passar por cima da opinião de todos, querendo demonstrar um mundo de conhecimento e experiência que ultrapassam as linhas do respeito e do saber ouvir, seja através de atitudes desnecessariamente grosseiras ou que tentam impor superioridade.
Eu só queria que todo mundo vivesse em paz. Sem a necessidade de intrigas por razões fúteis, sem a incontrolável vontade de sempre querer ter a razão e passar por cima da história e dos sentimentos alheios.
Afinal, todos sangram o mesmo sangue.
Queria conseguir entender se pareço "chato" por ser sincero, por estar presente nas horas difíceis e hoje encontro uma baita contradição nisso tudo: mas "ser amigo" não é isso mesmo? Não é mesmo estar presente nas horas difíceis e mostrar-se incondicionalmente doado e solícito?
Será mesmo o destino de quem se mostra de coração realmente aberto ser esquecido ou rotulado como chato?
O que há no coração das pessoas hoje em dia, minha gente? Só mágoa, só a capacidade irrefreável de carimbar estereótipos na ficha do próximo! Por que as pessoas têm de se esconder em máscaras de "valores" que passam por cima do respeito e da consideração, mas quando lhes convém só querem exigir respeito para si mesmas?
Certas palavras foram esquecidas a muito tempo: "obrigado" e "desculpe", principalmente.
Há uma "síndrome do ego inflamado" - opa, doença nova que estou para catalogar! - que não permite às pessoas serem humildes e se calarem quando necessário, querendo sempre passar por cima da opinião de todos, querendo demonstrar um mundo de conhecimento e experiência que ultrapassam as linhas do respeito e do saber ouvir, seja através de atitudes desnecessariamente grosseiras ou que tentam impor superioridade.
Eu só queria que todo mundo vivesse em paz. Sem a necessidade de intrigas por razões fúteis, sem a incontrolável vontade de sempre querer ter a razão e passar por cima da história e dos sentimentos alheios.
Afinal, todos sangram o mesmo sangue.
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Sérgio Costa
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19:32
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sábado, 7 de maio de 2011
As coisas,
como elas são,
se mudam
com uma guitarra na mão.
Adaptei esta frase variando-a a partir de um poema de Wallace Stevens, "The Man with the Blue Guitar".
Esta obra data de 1937.
Coincidência ou não, minha guitarra é de que cor?
=)
Declaro, aos quatro ventos, meu amor universal e infindável pela música.
Quem me conhece, sabe como a enalteço de várias formas, como arte, abstração que revela - em frequências e tons - sentimentos perfeitos e imperfeitos; como forma de salvar nossa consciência em momentos dos mais difíceis; como celebração, enfim... "Vida, muita vida", como diria um amigo meu.
Sei que, não importa o que aconteça, essa jornada chamada Música sempre vai estar comigo.
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Sérgio Costa
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12:17
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sexta-feira, 6 de maio de 2011
Enfim, vou lembrar
Não sei se é do fingir
ou do faminto fomentar
essa vontade de pensar
que memória é só sorrir:
visto que, apesar do leve transpor
de páginas cingidas em mel e indispor,
"amor" era a senha para não se roubar
do tempo o curto espaço de um gostar.
Liberto, agora sei, que é de tão mais bem-ter
- e de nunca, jamais se desvencilhar -
(apesar do que a vida, teimosa, mandar)
da gaveta de sentir, um antigo bem-querer.
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Sérgio Costa
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21:19
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